terça-feira, 16 de agosto de 2011

Libertango - Ástor Piazzolla






Ástor Pantaleón Piazzolla, nasceu a 11 de Março de 1921 em Mar del Plata (Argentina) e faleceu a 4 de julho de 1992 em Buenos Aires (Argentina). Filho de imigrantes italianos, Vicente Piazzolla e Asunta Manetti, foi um bandeonista e compositor de Tango.
Em 1933 teve aulas de piano com Bela Wilde, um pianista húngaro discípulo de Serguéi Rachmaninov. Algumas de suas composições mais célebres são Libertango e Adiós Nonino.

rostos descalços | luís de aguiar





as mãos arranham o interior da carne,
pelos tendões, abrem as feridas, rompem
as palavras em sede. a sede. as mãos levam
nas falanges
o riacho das vogais, e esperam por ti,
para te acariciar os vários rostos, descalços,
enxutos, rostos que nasceram da rua para a rua.
e as mãos escondem o suor, escavam
com mais violência, a côncava do seio negro.
as mãos esgotam-se nos calos, as mãos
separam as espumas brancas das conchas raras,
e repousam o sopro com o peso do olhar.
as mãos, as mãos, as mãos.
só as mãos tecem o sangue nos desígnios
dos volumosos corpos.



as pessoas arrastam-se pelas ruas,
definham os seus rostos contra as montras.
petrificam-se sem a volúvel pele que as cobre,
procuram, incessantemente, nos vidros do céu,
um espelho, um deus. procuram a imagem
das suas vozes. são humanos, inalteráveis,
e arrastam-se em sorrisos longos, em sorrisos
moribundos, nos seus corpos gastos.
e nenhuma sílaba é arrancada das suas bocas,
nenhum eco, nenhuma vida.
as pessoas fingem serem pessoas e misturam-se
ao movimento dos carros, misturam-se à sede
dos cães vadios, misturam-se ao rastro de sangue
que as velhas casas deixam nas pálpebras de pele.
os corpos erguem os braços, quase que rasgam
os pulsos ou os ombros, recostam-se à luz dos dias
e voltam a arrastarem-se pelas ruas, cientes que
a solidão, um dia, há-de entrar numa gota de lume.



subias as escadas de lisboa, subias os degraus
com as pernas secas, moídas.
subias o teu corpo com uma chama silenciosa,
para roeres o interior da tua face, e tocares
a carne da tua alma. inspiravas o cheiro
das casas de alfama, o mijo na rua a misturar-se
com os teus sapatos rotos, com a pele calejada
pelo choro do teu filho, da tua mulher, da tua mãe.
subias os degraus até à tua fé, subias lentamente,
mesmo antes de te rasgarem a camisa
e roubarem-te as poucas moedas
que tinhas no bolso e que eram para a tua morte.


Prémio de Poesia Montijo Jovem 2005


Não existe nada tão mau, selvagem e cruel, na natureza, quanto os homens normais.



Hermann Hesse, nasceu a 2 de Julho de 1877 em Calw, (Alemanha) e faleceu a 9 de Agosto de 1962 em Montagnola (Suiça). Foi escritor, contista, ensaísta e poeta. Ganhou o Prémio Nobel da Literatura e o Prémio Goethe em 1946.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Sara F. Costa


Sara F. Costa é o nome artístico de Sara Raquel Ferreira da Costa (Oliveira de Azeméis, Portugal 1987 - ) é uma escritora e poetisa portuguesa que tem vindo a ser galardoada em vários certames literários. Em 2007 obteve o Prémio Literário João da Silva Correia, realizado pela Câmara Municipal de São João da Madeira, o qual resultou na publicação deste soberbo livro, Uma Devastação Inteligente, pela Atelier.


passos de zinco atravessam-se nas estradas.
dizes trazer o terror preso na garganta
e o amor de lado,
de um qualquer lado.
densas insónias circulam
nos músculos das imagens,
colam-se às feições pouco nítidas
dos meus reflexos.
e a solidão incinerada nas beiras dos passeios
emana um odor turvo.
tu prossegues por dentro dos versos poluídos.
o silêncio surge-te a vermelho
enquanto o mundo vira a sua carne raspada
para os holofotes.



nós permanecemos com as mãos pousadas
sobre a terra
e a terra habita-nos dentro das mãos.
contemplamos o voo a dissolver-se
nas rugas do mar,
desfiamos a violência dos erros
e paramos de falar quando alguém passa
porque temos a boca suja
com segredos menstruados.



o som dos espelhos
alaga as ruas
que se arrastam pelo corpo
entre o suor ácido das formas.
chove
e vejo a língua do relógio
misturar-se com a lama.
a cidade arde
e a minha ressaca
é uma lareira
a pingar pelos dedos.



sais de casa com os olhos líquidos,
as mãos polidas apenas por engano
e uma voz nua
embrulhada no papel onde esgacei
dois versos.
um olhar prepara-se
para apedrejar a paisagem
e tu esperas, inerte,
que os destino te perfure violentamente
a carne.



as verdades esmagadas
contra a fome.
o silêncio assustado
pelo poema.

um anjo
à saída do metro.

porque o tempo desmaia
de cada vez que as histórias rebentam.

Sara F. Costa
in Uma Devastação Inteligente
Quando eu estiver contigo no fim do dia, poderás ver as minhas cicatrizes, e então saberás que eu me feri e também me curei.



Rabindranath Tagore, nasceu a 6 de Maio de 1861 em Calcutá, (Índia) e faleceu a 7 de Agosto de 1941 na mesma cidade, foi um poeta de renome mundial. Ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1913.


Balthazar Klossowski de Rola, conhecido como Balthus, nasceu em Paris em 1908 e faleceu com 93 anos na Suíça. Conviveu com Picasso, Matisse e Miró e deixou 300 quadros concluídos.
Balthus procurou de forma intensa a sensualidade explícita e o erotismo das adolescentes, embora os ambientes onde se inserem sejam lúgubres, de solidão e tristeza.
Sobre isso Balthus referiu:
A melhor maneira de não cair numa segunda infância é nunca ter saído da primeira.
A beleza da adolescência é mais interessante, encarna o futuro, o ser antes de se tornar em beleza perfeita. Uma mulher já encontrou o seu lugar no mundo, uma adolescente não. O corpo de uma mulher está já completo. O mistério desapareceu.





quarta-feira, 13 de julho de 2011

Enroscada pedra (a do tempo) que o sol declina


Voltou, hesitante, com as mãos sobre os olhos,
um fruto sem luz que em intemporais páginas
guardava a voragem desvanecida das horas.
Era um pássaro no umbigo ou um deus
que atravessava cego, os tempos mais verdes
mais brancos que o canto
que as minhas palavras não poderiam pronunciar.
Poderia imobilizar o teu ouro
no ventre que me susteve, sacudia
portanto a luz para o vazio dos ciprestes
e vigiaria um silêncio próprio,
entregue às mãos de um tempo maduro.
É em Agosto que se agasta a sede,
essa de ter fome de lábios que gelam o encanto,
pudesse eu, então, entoar a minha pátria
numa desconhecida terra
e desenterrar o sangue da solitária vida.
Mas estes braços, tão indefesos,
brilham com altíssimos girassóis,
percorrem as fissuras do vento
que por vezes pernoita no interior dos olhos
e isto para dizer que o coração mexe
por vezes sem sentido e que a morte é próxima,
que sorri por entre o sorriso da vida
e que o tempo e suas pedras flamejam
nas sílabas de sempre
e crescem
no longínquo exílio, meia hora antes das dez
com uma só narina
a apalpar um perfume ou um cigarro,
cigarra na garganta
e uma carícia a voar até ao escuro.

Entrarei com uma faca
a fingir que sou eu.
Chamar-me-ão com todas as feridas
para que o amor se preserve na carne
e defronte do pão de cada homem
uma pedra em forma de pão,
fermentada
com a memória a entregar
a sua rubra beleza aos cisnes e aos flamingos.
E tu, irmã ou esposa ou mãe,
palavra a arder nos dentes,
a reclinar a sombra, mármore que nasce
no espaço dos dias e que se move
em tão rara beleza
que jamais saberei decifrar.
Anota esta frescura que sobrevive,
é sangue esvaído de curtíssimos séculos,
exangue,
tão exangue quanto os pombos
de inverno
e através deste tempo contíguo,
apenas uma dor,
a que afrouxa a alma ao ladrar no sono
para que os visitantes saibam
que o sonho está guardado.
Estará a luz caída no chão
a evaporar os seus nomes para que não
a conheçam.
Esperar-te-ei num país sem relógios,
(como no filme silvestre de Ingmar Bergman)
para que chegues atrasada,
em derradeiro silêncio, ao fundo da voz.
Agora dá-me a tua mão,
agora mesmo, verás, o sol escurecerá.


luís de aguiar